Solidão na quarentena: quando tudo virou de cabeça para baixo

Está aí uma coisa que não imaginava sentir tão cedo: solidão. Pois ela veio com força nos primeiros dias de quarentena devido à crise do coronavírus.

Por isso, achei que seria bom falar sobre esse sentimento que invadiu a vida de muita gente nesse distanciamento social obrigatório.

Muitas pessoas estão confinadas sozinhas ou com colegas com quem têm pouca intimidade. Esse segundo é o meu caso – e mais abaixo conto por que me senti só mesmo sem estar sozinha.

Então, falar sobre a solidão é uma forma de entender o momento e buscar soluções.

Mas, se tudo isso vai passar, por que a preocupação? Porque as consequências desse sentimento são sérias e exigem meses ou anos de tratamento.

O site Tua Saúde apontou oito doenças que podem ser desencadeadas pela solidão:

  • Pressão alta
  • Alteração do açúcar no sangue
  • Predisposição ao desenvolvimento de câncer
  • Estresse e ansiedade
  • Depressão
  • Insônia ou dificuldade para dormir
  • Dor nos músculos e nas articulações
  • Maior chance de dependência de medicamentos, álcool e cigarro

Como não sabemos até quando serão necessárias as medidas de contenção, o melhor é começar a agir.

Vou contar aqui no texto qual foi o momento em que me senti sozinha e o que estou fazendo para melhorar.

Também conto onde pedir ajuda se você está nessa situação e como ajudar, caso alguém ao seu redor esteja precisando.

Vem comigo?

Quando a solitude vira solidão

Antes de tudo, quero relembrar a diferença entre estar sozinho e se sentir sozinho. Ou solitude e solidão.

Para mim, estar sozinha é uma escolha, ainda que temporária. Não pretendo viver sozinha para sempre.

Mas estou bem resolvida com isso. Aproveito os benefícios que essa escolha traz, como promover o autoconhecimento e a liberdade. Inclusive já falei sobre isso aqui. Isso é solitude.

Já solidão é quando a pessoa se sente só, desamparada. O que explica o fato de pessoas sentirem solidão mesmo quando não vivem sozinhas.

Pois a pandemia se instalou no mundo justamente quando eu estava fora da minha zona de conforto. E ter que lidar com tudo isso transformou minha solitude em solidão.

Por exemplo, se eu imaginasse que algo assim aconteceria, não teria optado por dividir a casa com outras pessoas. Pois, acredite, isso aumentou meu desconforto.

Nosso direito de ir e vir na rua já está limitado, quase nulo. Sobra a liberdade dentro de casa, certo? Não no meu caso. É difícil ter liberdade quando a casa é compartilhada com estranhos.

Passei a ficar basicamente no meu quarto. E foi impossível não pensar no que eu deixei para trás.

No Brasil, tinha uma casa só minha, com televisão e escritório – coisas que estão fazendo muita falta nesta quarentena.

Nos quarenta anos em que vivi confortavelmente no Brasil, nada se passou. Seis meses aqui em um estúdio sozinha, tudo tranquilo. Bastou dividir a casa com desconhecidos que fui obrigada a ficar confinada com todos.

Nem é uma questão de serem ou não pessoas legais, porque são. Mas convivemos há três meses, não há intimidade alguma.

Quando pensei em alugar um quarto, não estava nos meus planos ficar tanto tempo em casa. Tanto é que não sentia falta alguma da televisão.

Mas a vida sambou na cara dos meus planos e me fez repensar muitas coisas. Entre elas, quais seriam minhas novas válvulas de escape.

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Minha principal vista nas últimas semanas

Como combater a solidão em tempos de distanciamento social

Todo mundo precisa fazer alguma coisa prazerosa para aliviar a pressão do dia a dia. São as famosas válvulas de escape que equilibram nossa saúde mental.

Uma das pressões de quem mora fora é a dúvida: será que fiz a coisa certa? [Eu sei, eu sei… falo dela em quase todos os posts. Mas ela é tão presente que acaba sempre entrando na história.]

Eu respondia a essa dúvida viajando. Fazendo um turismo que não teria tempo nem dinheiro para fazer no Brasil. Essa era minha atividade prazerosa.

De repente, a quarentena fechou minha válvula de escape. E isso trouxe de volta minhas crises de ansiedade e pânico.

Durante alguns dias, eu só chorava. Dei graças a Deus por estar fazendo home office, assim podia chorar e ninguém via.

Foram duas semanas nesse clima. Até que respirei fundo e passei a ressignificar quase tudo o que eu fazia [olha a ressignificação aqui de novo!].

Comecei a transformar coisas simples em recargas de energia. E cada item abaixo virou uma valvulinha de escapezinho na minha vida:

Tomar um banho quente

É meu recurso muitas vezes. Até porque acabamos de sair do inverno aqui. Então é normal eu estar com frio.

Mas isso só entrou na minha lista porque descobri que, de fato, o banho quente faz bem. Isso porque nosso cérebro associa o calor físico ao bem-estar psicológico.

Para mim, é revigorante!

Cantar músicas que amo como se estivesse no karaokê

Tenho uma seleção de músicas que eu cantaria se fosse para o The Voice. São músicas intensas, não necessariamente tristes. Apenas músicas que exigem quase uma interpretação. Tipo Bohemian Rhapsody ou Don’t Stop Me Now, por exemplo.

Cada um tem a sua playlist de músicas viscerais. Faça a sua e desopile!

Escrever, escrever e escrever

É um momento propício para desenvolvermos a criatividade.

Eu gosto de escrever por isso tenho me dedicado muito aos textos. Mas a escrita é só um exemplo: desenho, pintura, dança, costura…

Tente achar algum que você goste, mesmo que seja só um pouquinho. Quem sabe não nasce um bom hobby em meio a essa loucura toda?

Planejar minhas próximas viagens

Ok, não posso viajar. Mas nada me impede de fazer planos. Penso em possíveis datas, procuro destinos e faço estimativas de valores.

Quando tudo passar, já tenho um bom trabalho adiantado para as próximas folgas e férias.

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Lembram do meu quadrinho de destinos?

Ser legal comigo mesma

A maior parte das pessoas vivas nunca passou por algo assim. Então, é natural que estejamos meio catatônicos.

Não exijo de mim total equilíbrio o tempo todo. Choro, durmo fora de hora, tomo vinho, como chocolate.

Não é hora de ser carrasca de mim mesma. E o mesmo vale para você.

Ter ajuda profissional

Tenho distimia, uma depressão leve, mas constante. Por isso conheço bem meus limites. Em um determinado momento, tudo estava pesado demais para mim. Não hesitei em procurar ajuda profissional. 

Mas você não precisa ter histórico de depressão para buscar tratamento. Caso esteja pesado demais para você também, a psicologia e a psiquiatria estão aí para ajudá-lo!

Se você quebrasse um braço, deixaria de ir ao traumatologista? Então por que com sua saúde mental seria diferente?

Todas essas coisas fizeram muita diferença para mim. Além delas, o site Notícias ao Minuto também indica:

  • Dar bom dia ou sorrir para estranhos, para manter algum laço de convívio
  • Escrever um diário, para canalizar os sentimentos
  • Fazer exercício físico, por todos os benefícios já conhecidos
  • Não comparar-se a outras pessoas, afinal, cada realidade é diferente
  • Manter contato com familiares e amigos, mesmo que sejam poucos
  • Arrumar a casa, pois casa limpa, mente limpa
  • Usar algum app de relacionamento, para se distrair conversando com alguém interessante
  • Fazer meditação, para ter equilíbrio mental

Não está a fim de fazer nada disso? Então dá uma olhada na sessão criada pelo jornal português Público

Como se vive sem sair de casa? reúne vídeos enviados por leitores, com suas dicas do que fazer na quarentena.

Vai que rola uma inspiração diferente? 😉

Onde procurar ajuda quando se sentir só

A peculiaridade do momento fez com que muitas linhas de apoio fossem criadas. Por isso, é fácil encontrar ajuda.

Confere aqui uma lista de opções gratuitas em Portugal:

  • Governo e Ordem dos Psicólogos: 808 24 24 24
  • SOS Voz Amiga: 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660 (todos os dias das 16h às 0h)
  • Sociedade Portuguesa de Psicanálise: 300 051 920 (dias úteis das 8h às 0h)
  • Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: acalma.online
  • Linha Conversa Amiga: 808 237 327 / 210 027 159 (dias úteis das 15h às 22h e fins de semana das 19h às 22h)
  • Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso: 211 533 854 (dias úteis das 10h às 13h e das 14h às 18h)
  • Associação pela Dignidade na Vida e na Morte: 962 730 796 / 913 361 008 (das 9h às 18h)

Além desses, oferecidos à população em geral, há outros serviços voltados para:

  • Profissionais da saúde
  • Grupos de risco
  • Pacientes com Covid-19 e familiares
  • Crianças e adolescentes

A lista completa está aqui e conta também com as iniciativas locais de diversas cidades.

Há também dois sites onde as pessoas podem se cadastrar tanto para pedir ajuda quanto para ajudar:

Vale lembrar que linhas de apoio foram criadas em todos os países. Basta uma busca no Google na língua local para encontrá-las.

E, se for preciso, os brasileiros ainda podem recorrer ao Consulado do Brasil no país onde residem. Sim, uma das atribuições consulares é oferecer assistência psicológica.

O tratamento não é feito no Consulado, mas é possível buscar orientação e encaminhamento. Todas as informações para contato estão no Portal Consular do Ministério das Relações Exteriores.

Como ajudar quem precisa

Por outro lado, se você conhece alguém que sofre com a solidão ou, simplesmente, quer ajudar pessoas que estejam nessa situação, saiba que pode fazer muito!

O Serviço Nacional de Saúde de Portugal tem um e-book bem bacana sobre isolamento social. Na história, três jovens ajudam uma idosa a vencer a solidão. Você pode baixá-lo aqui.

Mas, como é um material para o isolamento social em geral, não considera as peculiaridades desse momento – quando fazer uma visita e reunir um grupo estão fora de questão.

Por isso, aqui vão algumas dicas para os tempos de coronavírus. Para ajudar, você pode: 

Ser voluntário

As linhas de apoio precisam de pessoas do outro lado para atender quem busca atendimento. Oferecer o ombro, ainda que por telefone, pode ser uma boa forma de ajudar.

Como citei acima, inclusive há duas iniciativas onde as pessoas podem se cadastrar para ajudar.

Organizar eventos online

Sem forçar a barra, o que pode piorar a situação, organize uma conversa por vídeo com alguns amigos e inclua aquele que não está bem. 

Falem de coisas bobas, cantem músicas juntos, deem risadas… Isso alivia a tensão e pode ser o pontapé inicial para sair da solidão.

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Minha irmã e eu assistimos juntas à live do Raça Negra. Ela em São Paulo, eu em Coimbra

Ser pró-ativo

Nesse momento, ajudar é fazer qualquer coisa que faça a pessoa se sentir melhor. Se ela gosta de memes, mande aqueles que são a cara dela. Se gosta de pets, manda vídeos de cachorro e gato.

Li uma história (assim que achar o link, atualizo aqui) em que o paciente com Covid-19 estava sozinho. Aí a vizinha sentava do lado de fora do apartamento e eles conversavam através da porta.

Quando eu estava mal, minha amiga, em Porto Alegre, pesquisou contatos de psiquiatras aqui em Coimbra e me mandou. Só tive o trabalho de ligar.

Pode ser algo simples, mas que faz muita diferença.

Compartilhar informação interessante e confiável

Leu alguma coisa que seu familiar ou amigo pode achar interessante? Mande para ele. Sem nenhum tipo de cobrança, óbvio!

Uma história inspiradora, um curso on line ou uma conta bacana no instagram, por exemplo. O importante é tirar o foco da solidão.

Não julgar

Sabe-se lá por que ele está assim! Eu não tinha motivo nenhum para me sentir só: tenho pessoas com quem contar e não são poucas.

Mas me senti, fiquei desestabilizada, não sei explicar o por quê. Talvez outras pessoas que sintam o mesmo também não saibam.

Não é o momento para questionar os sentimentos, pois tudo está de cabeça para baixo. Desta vez, lide com os fatos e esqueça as causas. 

Questionar demais e apontar o dedo só vai piorar tudo. E já tá ruim o suficiente, né?

Atualmente, estou bem melhor. Os momentos mais tensos já passaram. Mas fico atenta a qualquer sinal que possa me levar de volta à solidão.

Até que eu possa voltar às minhas estradas, vigilância é fundamental.

E você? Se identificou com alguma coisa? Ou reconheceu alguém nesse tanto de palavras?

Posso ajudá-lo de alguma forma?

Vamos trocar uma ideia nos comentários!

2 Replies to “Solidão na quarentena: quando tudo virou de cabeça para baixo”

  1. Adorei, claro, e me identifiquei com muitos pontos. Apesar da minha rotina/vida não ter mudado substancialmente, eu tb dei uma “travadinha”. E tirei lá de dentro a força necessária. Eu não tenho vizinho com Covid-19 prá conversar na porta, mas tenho vizinhas queridas prá bater papo na cerca (de longe).
    Excelente texto. Vai ser histórico!!

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