#NoInstagram: conheça a Queima das Fitas

O mundo se viu num cancelamento sem fim de eventos e, por aqui, não foi diferente. Agora, foi a vez de uma das festas acadêmicas mais tradicionais de Portugal: a Queima das Fitas.

Confesso que eu estava ansiosa para presenciar as comemorações. É algo bem diferente do que temos no Brasil, daí minha curiosidade.

Aqui em Coimbra, a Queima de 2020 aconteceria entre 8 e 15 de maio – sim, são vários dias de festa. Por isso, resolvi contar um pouquinho sobre esse acontecimento.

E ainda tem uma surpresinha para quem for até o fim do texto. Então, segue aqui!

O que é a Queima das Fitas?

A Queima das Fitas é o evento que marca o fim do ano letivo nas universidades e escolas de ensino superior de Portugal.

Assim como no Brasil, as aulas terminam no fim da primavera. Aqui, no caso, entre maio e junho.

A Queima realiza-se em maio tradicionalmente.

Nesse momento, há duas comemorações básicas: o fim do curso para os finalistas (formandos) e a promoção dos caloiros (que conhecemos como calouros, mas, convenhamos, “caloiro” é muito mais legal!).

A emoção dos finalistas a gente entende, é a mesma que a dos brasileiros. Mas a dos caloiros é novidade para nós: é quando os estudantes, finalmente, podem usar o famoso traje acadêmico. Siiimm!!! Aquele do Harry Potter!

[Aliás, você sabe que tem muito de Portugal nos filmes do pequeno bruxo, né? A Julia Maiorana juntou várias referências nesse post aqui. Vale a pena ler.]

Enfim, dá para entender porque a Queima das Fitas é superimportante para os universitários.

https://www.facebook.com/watch/?v=1492330684145644

A origem da tradição e do nome

Tudo começou cá em Coimbra, o berço acadêmico de Portugal e onde eu gostaria de ter sido universitária.

O alicerce da coisa toda foi construído em 1899, com o Centenário da Sebenta. Mas foi no início do século XX que a festa passou a ter as feições atuais.

Sim, a Queima das Fitas é uma tradição centenária.

Naquela época, estudantes do último semestre de Direito passaram a amarrar suas pastas e livros com fitas vermelhas para todo mundo saber que eram finalistas.

Ao final do curso, adivinhe? Queimavam as tais fitas, em um ato simbólico. 

O que não era exatemente uma coisa original. Isso porque, segundo relatos, grupos de estudantes já haviam feito o mesmo em meados de 1850.

Porém, foi a primeira vez que o ritual foi organizado. De lá para cá, outros eventos foram agregados, como a Serenata, o Cortejo e o Baile de Gala, por exemplo.

O que rola na semana da Queima das Fitas

Como falei ali em cima, o evento dura alguns dias. Seria tipo o que conhecemos por Semana Acadêmica, mas bem mais pomposa.

Segundo a Associação Acadêmica de Coimbra (AAC), o programa oficial é composto por:

  • Serenata Monumental
  • Sarau de Gala
  • Baile de Gala das Faculdades
  • Garraiada
  • Récita
  • Venda da Pasta
  • Queima do Grelo
  • Cortejo
  • Chá Dançante
  • Noites do Parque

Alguns eventos são restritos aos estudantes e outros abertos à comunidade em geral. Dizem que os ingressos esgotam rapidamente para qualquer que seja a festa.

Entre os mais procurados pelo público estão a Serenata Monumental e shows com artistas bem conhecidos, portugueses e estrangeiros.

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Serenata Monumental em Coimbra, Queima das Fitas 2018 (Foto: coimbra.pt)

E para quem acha que é só uma festinha, toma esta: em 2012, 200 mil pessoas prestigiaram os espetáculos do fim de semana da Queima.

Tá bom para você?

Uma atenção especial ao Cortejo

Um dos momentos mais aguardados, o Cortejo é um show à parte!

Nele, os estudantes desfilam pelas ruas da cidade em carros e caminhões decorados. Os finalistas costumam ir em cima dos veículos, comemorando o fim do curso.

Pais assitem orgulhosos à conquista dos filhos, enquanto a população acompanha a festa como espectadora.

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Cortejo da Queima das Fitas (Foto: coimbra.pt)
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Cortejo da Queima das Fitas (Foto: coimbra.pt)

Festas iguais, nomes diferentes

Queima das Fitas é o mais comum, mas em algumas cidades, a Semana Acadêmica é conhecida por outros nomes:

  • Enterro, na Universidade de Aveiro
  • Enterro da Gata, na Universidade do Minho
  • Bênção das Pastas, no Algarve

Com a palavra, a experiência

Com toda a teoria em mãos, resolvi perguntar se, na prática, era tudo isso mesmo. Então a Rute (que vocês conheceram no post sobre o Natal) e a Ana, duas amigas maravilhosas que fiz aqui, me contaram sobre as experiências delas.

Se isso não colocar você dentro da Queima das Fitas, não sei o que colocará.

Primeiro, a Rute:

“Crescer em Coimbra é viver sempre com a Torre da Universidade como pano de fundo de todos os nossos actos. 

Cresci a ambicionar ser estudante de Coimbra, vestir o traje académico e viver tudo o que está associado à festa Coimbrã. 

Cresci a ouvir o meu pai contar que, devido à crise académica, não teve queima das fitas – o ano das fitas e do carro é o expoente máximo de qualquer estudante. 

E tive o privilégio de acompanhar a minha mãe em parte do seu percurso universitário faculdade de letras da Universidade de Coimbra.

Quando cheguei ao ensino superior, já a minha irmã tinha vivido as suas Queimas e eu era também conhecedora desta festa estudantil. 

Estudei em Coimbra, numa escola privada e não na Universidade de Coimbra. Mas nem por isso deixei de cumprir a tradição e viver “tudo o que um estudante tem direito”.

E se há algo que nos marca é a Queima das Fitas e o Cortejo. No meu caso, foi o ano em que fui quartanista o que mais me marcou. 

Fui no carro e tal como todos os que estavam na minha situação fomos “os reis da festa”. 

Se no quinto ano ir cartolada me marcou, porque o fim de um percurso se aproxima, ir no carro é memorável. Foi para mim! E essa queima também. 

As noites do parque desse ano foram especiais, os concertos mais marcantes e os jantares de curso mais animados. O dia do cortejo começou bem cedo e, claro está, terminou no queimódromo com um animado concerto do Quim Barreiros.

Mas a Queima das Fitas é muito mais do que as noites do parque

A cidade nessa semana vive um ambiente de festa, com capas negras por todo o lado e, agora ao domingo, com a realização de um cortejo que atrai milhares de pessoas às ruas da cidade. 

Os pais chegam repletos de entusiasmo e alegria por verem os seus filhos quase doutores. Observam-nos a desfilar com os olhos postos no futuro. Um futuro promissor. 

Coimbra transforma-se nesses dias em que até aos transportes públicos se engalanam para transportar os seus passageiros. A cidade fica mais bonita e o céu tem outro brilho. Paira uma “magia” no ar. 

A mim, que por lá passei há alguns anos, nestes dias invade-me um forte sentimento de saudade. Quando se deixa de ser estudante a Queima das Fitas nunca mais é igual. Mas não deixa de ser especial. 

Diria que quem por lá passa vive sempre a Queima das Fitas com nostalgia. De um tempo inesquecível, mas que não volta. Uma vez Coimbra, para sempre saudade.”

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Rute (a segunda, da direita para esquerda) na sua Queima das Fitas, 2003 (Foto: Arquivo pessoal)

Depois a Ana:

“A minha querida amiga Melina Gasperini pediu-me para falar sobre a minha Queima das Fitas e o que representou para mim esse momento considerado tão marcante na vida e na história da vida académica e da cidade de Coimbra.

Aceitei de imediato o desafio, mas só depois tomei consciência que o que me propôs são várias viagens, numa só, às várias Queimas das Fitas da minha vida… Vamos ver se consigo…

Tenho 44 anos e nasci em Coimbra. Portanto, as minhas memórias da Queima das Fitas são muito anteriores aos meus tempos de estudante.

Quando era criança, ir ver passar o cortejo da Queima das Fitas era um acontecimento. E as minhas primeiras memórias são das ruas de Coimbra cheias de gente nos passeios e nas ruas, as lojas fechadas.

Toda a gente à espera de ver passar os carros do cortejo e os estudantes, decorados com flores de papel das cores dos vários cursos, feitas pelos próprios estudantes.

Eu costumava ir com os meus pais, a minha avó e a minha madrinha. Instalávamo-nos na Baixa, quase sempre junto à Câmara Municipal, e esperávamos pelo cortejo.

Eu, sempre ansiosa que os estudantes me dessem uma flor do carro (com que depois decorava o cabelo) ou uma plaquete. Nem sei se ainda se fazem plaquetes…

O que é uma plaquete? É um livro de cada curso, com as caricaturas de cada um dos estudantes que vai no carro.

Para além da caricatura, estão algumas das principais características de cada estudante, alguns momentos marcantes da sua passagem pela Universidade de Coimbra e ainda algumas dedicatórias de colegas e amigos. Tudo em desenho…

Eu lembro-me de passar horas a ler o que estava escrito nas plaquetes, assim que chegava a casa… e sonhar com o dia em que também eu teria a minha caricatura numa plaquete…

Até chegar ao liceu, as minhas memórias de Queimas das Fitas não passavam desse momento. Do cortejo e da magia que era ver tantos estudantes a divertirem-se pelas ruas de Coimbra.

Isso e ouvir a minha avó a dizer que a maior alegria que eu lhe dava era um dia me ver também ali, a divertir-me como eles…

E aconteceu! De tal maneira que fez questão de me oferecer o fato académico – o fato que os estudantes universitários usam em diversos momentos ligados à Vida Académica e que é uma das imagens de marca da Queima das Fitas. Tenho muito orgulho por o ter usado!

Não estudei propriamente na Universidade de Coimbra, mas numa escola do Instituto Politécnico de Coimbra, onde estudei Comunicação Social, mas tenho vários pontos altos nas várias Queimas das Fitas que vivi como estudante universitária.

Ter ido no carro no cortejo da Queima das Fitas foi um dos mais importantes. No fundo foi a concretização de um sonho de criança. Também fiz flores de papel e também tive direito a uma caricatura numa plaquete.

Mas também não esqueço a praxe (na minha altura, os doutores – alunos com mais de uma matrícula – obrigavam os estudantes do primeiro ano – caloiros – a andar com orelhas de burro feitas em papel enfiadas na cabeça e a fazer declarações de amor a desconhecidos… Eu lá tive de fazer o mesmo.

A primeira vez que vesti o fato académico (na primeira Queima das Fitas) e cruzei a capa académica (na primeira Serenata Monumental) e, claro, as Noites do Parque que, na minha altura, eram no Parque Dr. Manuel Braga e num antigo descampado onde hoje é um local chamado Parque Verde.

As Noites do Parque são uma espécie de festival com espectáculos, barraquinhas de comida e bebida e outras diversões, que dura mais de uma semana e onde reina a animação e algum (muito) álcool…

São noites inesquecíveis, que marcam de uma forma muito forte a nossa passagem pela vida académica!

 Hoje, a Queima das Fitas é um bocadinho diferente do meu tempo… mas continua a ser um momento alto, de muita animação e de grande tradição na cidade de Coimbra, com estudantes, as capas negras, as cores dos vários cursos e o fado e a canção de Coimbra por todo o lado, o que nos faz ter muito orgulho por ter nascido numa cidade tão especial!

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Ana (à esquerda) quando chegou a sua vez na Queima das Fitas, paras orgulho da sua avó (Foto: Arquivo pessoal)

Não parece ser mesmo uma tradição maravilhosa?

Surpresinha para você que chegou até aqui

A Queima das Fitas de 2020 em Coimbra foi transferida para setembro. Mas, na próxima quinta-feira, dia 7 de maio, vai rolar uma Serenata Simbólica via streaming.

Na verdade, é na virada de quinta para sexta, pois o evento acontece à meia noite (20h no Brasil). No mesmo horário em que aconteceria o espetáculo ao vivo, que daria início às comemorações deste ano.

Quem quiser assistir de qualquer lugar do mundo, pode acompanhar o facebook da AAC, onde estão passando todos os detalhes.

Vou deixar também o vídeo do Dux Veteranorum de Coimbra falando sobre o adiamento da Queima. 

Aqui dá para ver bem como tudo é muito organizado e levado a sério – mesmo quando fala em “penicos para o batismo” e “carrinhos de compras guiados por estudantes altamente etilizados”. Vale a pena assistir.

PS: A Latada – que ele tanto fala no vídeo – é uma festa semelhante à Queima, mas que acontece no início do ano letivo. É tipo uma recepção bem divertida aos caloiros.

No ano passado, não consegui assistir pois estava trabalhando. Se der, esse ano compareço e conto como foi 😉

E então? Gostou?

Já conhecia a Queima das Fitas?

O que acha dessa tradição?

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