Natal longe da família e a importância de ressignificar datas

Uma das minhas expectativas na mudança para Portugal era como seria o Natal longe da família. Sempre estive com meus pais na véspera, no dia ou nos dois.

Temos muito enraizado na nossa cultura o Natal como uma data para passar com a família. A parentada pode até quebrar o pau o ano inteiro, mas precisa estar reunida em 24 ou 25 de dezembro.

Minha primeira reflexão sobre como vemos datas como essa veio com o convite de uma amiga que fiz aqui em Coimbra. A Rute é casada com o Ricardo e ambos trabalham comigo. E ela me convidou para passar o Natal com eles.

Fiquei emocionada com a gentileza justamente por ter essa ideia tão familiar do Natal. Aceitei, claro, mas tive medo de que a minha saudade estragasse a noite de todos.

Comecei, então, a trabalhar na minha cabeça o significado do Natal. Por que ele seria diferente do dia das mães, dia dos pais e aniversários? Em todas essas outras datas eu também estava longe.

Além disso, se o objetivo é passar o Natal em família, por que essa família tem que ser a minha necessariamente? Não seria melhor manter o clima ainda que a um oceano de distância?

Foi exatamente isso que começou a virar a chave dentro de mim.

Meu Natal seria em casa, sozinha, cheio de lágrimas e espumante. Acabou por ser um dos mais divertidos que já passei. Já, já falo mais sobre isso.

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Eu, Rute, Susana e Joana. Olha meu sorrisão de felicidade!

Quatro mulheres e o Natal longe da família

A segunda reflexão veio quando conversei com a Mari, a Ana, a Carla e a Marília, quatro brasileiras que conheci graças ao Anda cá.

A Mari mora na França e veio visitar a mãe, a Ana, que chegou em dezembro a Coimbra para fazer doutorado.

A Carla está aqui desde setembro com a filha, Marília, também para estudar, e tinha um quarto disponível em casa. Através de um anúncio, a Ana alugou esse quarto.

E foi assim que elas acabaram por passar o Natal de 2019 juntas. “Um dos melhores” para usar as palavras da própria Carla.

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Ana e Marília em clima de Natal

Todas têm experiência em amor à distância: a Mari e a Ana já vivem longe há alguns anos. Agora estarão mais pertinho, mas as outras duas irmãs e filhas, respectivamente, seguem no Brasil.

A Carla, que já morou em diversas partes do mundo, tem um filho que vive nos Estados Unidos, o Kylle.

Eu inclusive conheci o Kylle e a namorada, no Ano Novo, quando mãe e filho conversaram em uma chamada de vídeo e brindaram “juntos” a chegada de 2020.

Elas tinham em comum a distância da família. E foi justamente esse vínculo que as uniu em um Natal “não-tradicional”, mas com muita diversão e boas energias. Se esse não é o espírito, não sei o que estou fazendo nesta vida! 🙂

Foi conhecendo a história delas que me caiu a ficha: situações como essas serão cada vez mais comuns. Familiares distribuídos pelo mundo, cada um atrás do seu propósito.

Então está mais do que na hora de ressignificarmos datas especiais. Não se trata de com quem estamos, mas como estamos.

Uma virada de ano longe… do chão

E se estamos bem, não desanimamos nem com dezenas de desconhecidos à nossa volta

Em 2014, a tia Sílvia, única irmã da minha mãe, estava planejando uma viagem a Paris. As férias iriam começar no final de dezembro e ela passaria o Natal conosco em Porto Alegre. Depois, seguiria para a Europa.

E esse depois foi exatamente às 23h30 do dia 31 de dezembro, horário do voo. Quem viaja numa hora dessas? Muita gente! 🙂 Devido à baixa procura, os preços são bem atrativos. Como a gente gosta de um bom desconto…

Nesse voo, à meia-noite, a tripulação ofereceu uma taça de espumante para cada passageiro, o comandante desejou um feliz ano novo e todos brindaram.

Assim, a tia Sílvia começou não só 2015 como uma viagem inesquecível.

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Tia Sílvia em frente à Basílica do Sacré Coeur, no bairro Montmartre, em Paris, provando que chuva não é motivo para ficar no hotel

Perguntei o que ela sentiu e, sem querer, a resposta teve tudo a ver com isso que estamos falando: “Ano Novo pode ser qualquer dia, porque ele está dentro da gente. É a vontade de ter um recomeço, é o amor pelas pessoas próximas.” Faz sentido, não?

A tia Sílvia também tem muita experiência em Natal longe da família. Nesses casos, segundo ela, foi o estado de espírito do momento que fez ser bom ou ruim.

“No último Natal em Maringá, foi escolha ficar em casa, pois estava economizando para realizar um sonho. Fiz ceia, tirei fotos, assisti muitos filmes bobos de Natal que eu adoro!”, contou.

Em outros anos, já teve ceia com amigos que foi muito boa e outra não tão boa assim. Para ela, o que tirou a graça nesta última foi a falta de espírito natalino dos amigos. “Foi só uma festa como outra qualquer.”

E isso me traz de volta ao Natal de 2019, com a família da Rute e do Ricardo.

O espírito do Natal mesmo longe da família

Comecei a trabalhar no Diário de Coimbra em julho. Ou seja, foram alguns meses de papos e risadas em que a Rute e eu percebemos nossas afinidades.

Nesse tempo, ouvi ela falar sobre a família e a relação saudável que eles mantinham. O que lembra muito a minha realidade no Brasil. Minha família são pessoas que me fazem bem. Assim como a dela.

Essa identificação foi fundamental para eu ter certeza de que seria uma noite feliz (tum dum dss). Seria legal mesmo com toda a carga emocional que um Natal traz.

Poderia ser um momento de tristeza, por ver neles a minha família e sentir saudade. Mas se transformou em uma grande comemoração, pois manteve em mim o espírito natalino a que eu estava acostumada.

Ressignificação, lembra? Pega o sentimento e dá um novo sentido. Ameniza a saudade com pessoas que lembram aquelas que estão longe.

Não é substituir! Pelo contrário! É reforçar a presença, mantendo dentro de si o que a família tem de bom, ao invés de lamentar a distância.

A forma como me acolheram e fizeram me sentir em casa foi a cereja do bolo-rei. O carinho de pai e mãe, as piadas de irmãos, a inocência das crianças… estava tudo lá e eu fazia parte daquilo. Quem pode dizer que não era um Natal em família?

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Eu com a Rute e a maravilhosa tia Bilu

Estar longe dói, não é nem um pouco fácil. Em algumas datas é especialmente difícil. Mas é inteligente da nossa parte escolher pelo menor sofrimento.

Minha dica para quem está no mesmo barco é descobrir as Rutes que estão perto de você. Conversar com as Maris, as Anas, as Carlas e as Marílias. O mundo está cheio delas! 

E, se quiser conhecer o mundo, tê-las por perto vai tornar tudo mais divertido. Eu garanto!

PS: Não posso deixar de contar que foi com a Carla e com a Marília que entrei em 2020. Depois ainda encontramos a Rute, o Ricardo e toda a “minha família adotiva” para comemorar o Ano Novo. “Um dos melhores”, como diria uma amiga 🙂

Você já passou alguma data importante longe da família?

Conta pra mim sua experiência aqui nos comentários!

14 Replies to “Natal longe da família e a importância de ressignificar datas”

  1. Mê! Sou fã dos teus textos! Já te disse né? Cada texto teu que leio, fico encantada! Continua assim, nos deliciando com teus escritos. Quem sabe um dia tu junta todos e transformas num livro! Uma venda já tens garantida! Beijos da tia Vera.😘😘😘❤️❤️❤️

  2. Que baita texto, amiga!!
    Já passei um Natal longe da família, nos Estados Unidos e lá sequer comemoram a “virada” do dia 24 para 25. Me juntei com brasileiros, saímos para jantar e tomamos champanhe em um quarto de hotel. Natal diferente, mas feliz.

    Me identifiquei com o texto, meu ano foi pautado por ressignificaçoes. Com o nascimento da Júlia mtas coisas passaram a ter outro sentido, inclusive datas festivas, a mais “emblemática” foi o dia das mães, foi totalmente ressignificado.
    Saudades tuas!!
    Bjao amiga

    1. Miga, que bacana isso! Pois é, nem é preciso estar longe, as próprias mudanças da vida podem nos exigir essas ressignificações ❤
      Saudade!

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