Morar fora do Brasil: quando eu vi que tinha chegado a hora

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Sempre tive vontade de morar fora do Brasil, mais pela experiência do que por qualquer outra coisa. No entanto, nunca me movimentei muito para isso acontecer.

Até que a “qualquer outra coisa” chegou e ela se chamava insatisfação. Sobrenome: total. A vida profissional estava ruim, a pessoal quase ruim também, o país indo de pior a muito pior. Meu salário só pagava os boletos – e nem eram os que eu queria. Dez por cento do que eu recebia já ficavam na farmácia, todo mês, em antidepressivos e ansiolíticos.

Às vezes não há o que fazer. Mas eu não tenho filhos e, àquela altura, também não tinha mais marido. Nada justificava me acomodar naquela vida. Eu me obriguei a tomar uma atitude.

Cogitei me mudar para outro Estado, onde eu tivesse mais chances de crescer profissionalmente. Mas a situação do país, como um todo, fazia com que eu me sentisse mal.

Assim, tive a certeza de que o passo precisava ser maior.

Eu ia morar fora do Brasil, mas onde?

Em 2014, minha família e eu conseguimos nossa cidadania italiana. Isso foi determinante para eu escolher a Europa como destino. A primeira opção era mesmo a Itália, mas eu não estava tão familiarizada com a língua.

Por isso, acabei seguindo o rumo de milhares de brasileiros e parei em Portugal. Mais precisamente, na Nazaré. Queria fugir das cidades grandes e a ideia de morar na praia sempre me agradou. E, claro, a peculiaridade das ondas gigantes foram determinantes para eu escolher essa praia e não outra.

O plano era muito simples: ir com grana para ficar de dois a três meses e tentar me estabelecer. Com a cidadania europeia, é possível trabalhar legalmente durante 90 dias mesmo que ainda não tenha a autorização de residência. Se ao final dos três meses – ou do dinheiro, o que viesse primeiro – não tivesse engrenado, eu voltaria.

E se você quer saber de quanto estamos falando, digo de boas: trouxe comigo dois mil euros em espécie e 300 euros no Travel Card. Esse último apenas para emergência, pois as taxas são muito altas. Para uma pessoa, garanto que é suficiente.

Os desapegos mais fáceis e os mais difíceis

Ouço muitas pessoas dizerem que não gostariam de morar fora do Brasil pois gostam do país. Nunca tive esse apego. Gosto de diversas coisas de lá, mas viria a gostar de outras em outro lugar. Não seria o espaço geográfico que me faria ficar.

Vendi ou doei boa parte das minhas roupas e coisas de casa. O que tinha algum valor sentimental trouxe comigo ou deixei com pessoas especiais. Vim para Portugal com uma mala – das grandes, mas uma só. A gente não precisa de muito mais do que isso.

Por outro lado, abrir mão do convívio com minha família e meus amigos foi a decisão mais difícil. Euro valendo R$ 5,00 não dói nada comparado à saudade de tê-los por perto. Esse é o pior dos desapegos necessários.

Se você está indo morar fora do Brasil, não esqueça de preparar também a sua cabeça. De nada adianta ter roupas ou dinheiro suficientes se você não estiver maduro psicologicamente para passar por essa mudança.

Se por um lado há todo um alívio emocional – mais segurança, educação de qualidade, perspectiva de futuro… –, por outro há a carga do não pertencimento. E isso não tem nada a ver com ser bem recebido ou não. A gente demora a se sentir parte do novo lugar.

O mito do “largar tudo para ser feliz”

Você também tem ranço dessa frase? Eu tenho muito. Para mim, ela peca duas vezes, dando a entender que o “tudo” é maravilhoso e que o “ser feliz” é o tempo todo. Nem um, nem outro.

No meu caso, larguei um emprego que já estava chato e um aluguel alto. Com certeza, isso não é a definição de “tudo”. Chegando aqui, tive altos e baixos, dúvidas e mais dúvidas, inseguranças. Ainda tenho. Estou feliz, claro, mas nem sempre.

Acho a frase, em si, um desserviço: torna quase utópica a possibilidade de “largar tudo” e, depois, promete uma felicidade plena que não existe. Mudar de vida é menos complexo do que você imagina, mas não é um mar de rosas. Tenha isso em mente e tudo sairá como o planejado.

Ter coragem para sair do Brasil

Entendo quem diz que não tem coragem para fazer uma mudança drástica como morar fora do Brasil. De fato, são escolhas importantes. Mas, às vezes, coragem a gente precisa é para ficar onde está, não concorda?

Imagino que a coragem está diretamente ligada ao cálculo de risco. Quanto menor é o risco, maior é a coragem. Quando vim para Portugal, deixei guardado o dinheiro para a passagem de volta. Era a garantia de que, se tudo desse muito errado, pelo menos eu poderia voltar.

Além disso, tenho minha família e meus amigos. Ou seja, teria um amparo se precisasse. Tudo isso fez com que a pressão de estar tomando a decisão certa diminuísse.

Quando você deixa uma margem de segurança, tomar coragem para o próximo passo se torna menos pesado. E assim para cada passo seguinte. Quando vê, tudo mudou e nem doeu.

Bônus

Gravei este vídeo um dia depois de decidir morar fora do Brasil. Conto um pouco do que me motivou a tomar essa decisão e de como fiz para não me deixar desistir da ideia.

Essa é uma dica para quem está pensando em fazer o mesmo: vá concretizando pequenas coisas, como comprar a passagem ou reservar o hostel. Isso meio que obriga você a manter os planos de pé 😉

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