Um balanço do meu primeiro ano morando em Portugal

Exatamente hoje, 4 de abril, completa um ano que estou morando em Portugal. Às vezes parece que faz mais tempo. Outras, sinto como se tivesse chegado ontem.

Foram muitos os sentimentos e pensamentos nesses doze meses. Do deslumbre ao “quero voltar pra casa!!”.

Também foram inúmeras as experiências. Legalizar a situação, comprar um carro, aprender as diferenças da língua… Coisas normais que ganham uma nova dimensão quando se está em outro país.

Por isso, aproveitei a data para contar um pouco do que aconteceu e como me senti. E convidei a Vanessa, minha amiga de infância, para dividir a sua experiência também.

Ela e a família estão morando em Portugal desde 2017 e foi com eles que passei meus primeiros dias aqui.

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Eu e Vanessa, no Portinho da Arrábida, em Setúbal, no meu primeiro dia em Portugal

Na conversa que tivemos, percebemos que algumas coisas sempre serão comuns a quem decide morar em outro país. Enquanto outras podem ser completamente diferente dependendo da pessoa.

Quer saber quais? Anda cá, vou contar tudo!

Morando em Portugal com deslumbre de turista

Não sei se é comum decidir morar em um lugar que a gente não conhece. Mas foi exatamente o que eu fiz.

Eu nunca tinha vindo a Portugal. Aliás, nunca tinha estado na Europa.

Então, quando cheguei, tudo era novidade para mim. E isso fez com que eu tivesse olhos de turista por muito tempo.

É bom e não é.

Bom porque qualquer voltinha é uma emoção. Ruim porque não é férias, é vida normal. Precisa de rotina, horários, compromissos. Coisas que o turista não tem.

Demorou algum tempo para esse sentimento passar. Mas tudo começou com o aluguel do estúdio por seis meses e a busca por um trabalho que não fosse temporário.

Ou seja, eu já estava em Coimbra quando a vida deixou de ser férias.

Uma obs sobre aluguéis (ou arrendamentos, como dizem aqui)

Já que falei em aluguel, em Portugal também é preciso ter cuidado na hora de escolher um imóvel. A menos que seja de uma pessoa conhecida, alugar pela internet pode ser uma roubada.

O ideal é reservar um hostel, hotel ou Airbnb por duas semanas ou um mês e visitar pessoalmente os imóveis. Os motivos são os mesmos do Brasil: expectativa x realidade, localização, custo-benefício… 

Esses são dois sites muito bons para encontrar casas, apartamentos e até quartos em Portugal:

Dá para contatar o corretor ainda no Brasil e combinar a visita para quando chegar.

Também vale lembrar que é bastante comum pedirem um ou dois meses de caução. Facilita porque dispensa o fiador, mas é necessário estar com o dinheiro na mão.

Agora voltando…

Só mesmo quando comecei a trabalhar que tudo mudou. Finalmente, tive uma rotina e pude separar os dias de trabalho dos dias de turismo.

Já a Vanessa teve uma experiência diferente. Ela chegou com as filhas, Manuela, de 3 anos, e Bibiana, um ano e meio, em outubro de 2017. O Eduardo, marido da Nessa, já estava em Portugal desde maio.

Enquanto ela enlouquecia em Porto Alegre, encerrando todas as pendências, o Eduardo enlouquecia aqui, providenciando casa, trabalho e deixando tudo pronto para elas virem.

Então, quando a Vanessa chegou, já tinha um lugar certo para ficar, o Eduardo já tinha uma rotina. Ou seja, a vida já estava andando, não teve tempo para férias.

Ela conta que, quando chegou, o primeiro sentimento foi de angústia por não ter o que fazer. Até se dar conta de que, naquele momento, precisava focar no cuidado da família.

E foi o que ela fez nos primeiros meses, até todos estarem bem adaptados à nova vida.

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Eduardo, Vanessa, Manuela e Bibiana no Castelo de São Jorge, em Lisboa, no dia seguinte à chegada delas em Portugal (Foto: Arquivo pessoal)

Dá para ver que o impacto da mudança depende de como a pessoa chega: com ou sem família, com ou sem trabalho, com ou sem lugar certo para ficar e, principalmente, com quanta reserva financeira.

Eu, apesar da rotina, não abri mão de turistar. Até porque estamos em uma localização geográfica muito privilegiada. 

Tudo é logo ali (por isso comprei um carro)

Uma das vantagens de estar morando em Portugal é a proximidade com diversos países. Minha ficha em relação a isso caiu quando vi passagem aérea para a Itália por 90€, ida e volta.

Para quem está acostumado com a realidade brasileira, onde tudo é longe e caro, estar a oito horas de ônibus de Madri é enlouquecedor.

Mas não precisamos ir tão longe. Em Portugal mesmo há lugares incríveis, alguns a menos de uma hora da minha casa.

Foi esse um dos motivos que me levou a comprar um carro, coisa que jamais tinha passado pela minha cabeça.

Mais uma vez, comparando com o Brasil, comprar um carro usado aqui é relativamente barato. Tanto o valor do veículo quanto o seguro são bem mais acessíveis.

Além disso, todos os automóveis passam por uma inspeção anual no IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes, o “Detran” aqui de Portugal). Se não está com mecânica e todos os itens obrigatórios em dia, perde a licença para circular.

Isso dá uma certa segurança na hora de comprar um carro usado. O meu, por exemplo, é um Peugeot 106, de 1997, com quatro portas e ar condicionado. Paguei 900€ em julho do ano passado.

De lá para cá, já fizemos quase quatro mil quilômetros juntos e só precisei colocar gasolina e anticongelante até agora. Um carro de 23 anos e zero dor de cabeça.

Já o seguro obrigatório é feito diretamente com a seguradora da nossa preferência e, como o nome diz, não podemos rodar sem ele. Mas é o único custo anual além da inspeção, que custa cerca de 30€.

Como no Brasil, o valor do seguro varia conforme o carro. O meu está em torno de 240€ por ano.

Claro que não cobre roubo, mas realmente não é necessário. Estaciono na rua, tranquilamente, sem custo algum – e sem preocupação também.

O principal motivo para a compra do carro foi meu horário no trabalho (às vezes saio às 2h da manhã). Não tem transporte público a essa hora naquela região, então fiquei meio sem alternativa.

No entanto, para minha surpresa, foi uma ótima aquisição! Ganhei praticidade para a rotina e, principalmente, aproveito os dias de turismo com mais liberdade.

Se você está morando em Portugal e ficou empolgado com a ideia de comprar um carro, aqui vão os três sites onde mais encontrei opções:

IMPORTANTE: Mesmo aqui, existem muitos vigaristas tentando se dar bem. É preciso ter cuidado na hora de fazer negócio! Na dúvida, vale pedir a avaliação de um mecânico. Se não conhecer nenhum, tem a opção de marcar uma inspeção no IMT que apontará qualquer problema existente.

Perrengues: quem nunca?

Passar por sufocos faz parte de qualquer mudança de país. E comigo não foi diferente.

No meu terceiro dia no jornal, me acidentei de patinete elétrico a caminho do trabalho. As pessoas que me socorreram queriam que eu fosse para o hospital. Beirei o pânico!

Vi que não tinha nada quebrado e preferi ir para o jornal mesmo assim. Era o único lugar em que eu conhecia alguém.

Sabe aquelas coisas automáticas que já sabemos fazer? Qual hospital, quem tem que avisar, qual é o procedimento com a empresa… Zera tudo! Volta ao início.

Nesses momentos fala muito alto a sensação de não pertencimento.

Aconteceu de novo quando eu fui trocar a carteira de motorista brasileira pela portuguesa. Foi um estresse porque o prazo estava terminando e faltava meu cadastro no Serviço Nacional de Saúde. Coisa que, se tivesse nascido aqui, já teria desde criança.

Abre parênteses: Quem está morando em Portugal e ainda não passou por essa etapa, fique atento! Apesar de não constar na relação de documentos exigidos para a troca da carteira de motorista, o número de utente é necessário para o atestado médico – mesmo que seja feito em consulta particular. Evite arrancar os cabelos como eu e providencie o seu o quanto antes. Fecha parênteses.

Teve também a vez em que eu estava na Nazaré e fiquei sem bateria no celular. Como voltar para Coimbra, 90km distante, à noite e sem GPS?

E quase esqueci desse: a primeira vez que peguei a estrada aqui, passei por engano pela Via Verde no pedágio (portagem, em Portugal). Via Verde é aquele bagulhinho que pode passar direto e debita no cartão de crédito depois.

Mas, em Portugal, a gente paga proporcional ao quanto anda. Então, quando entro na via expressa, pego um ticket no pedágio. Quando saio, devolvo o ticket e a máquina calcula quanto tenho que pagar.

Quando não tenho o ticket, pago o valor total do trecho. Como não tinha, marchei com 55€. Chorei de raiva de mim!

Por fim, nesse exato momento, há o desgaste causado pelo isolamento do coronavírus, numa casa que não é só minha e sem saber bem o real risco da minha família no Brasil. 

Todas essas coisas fazem a luz do não pertencimento parecer um giroflex.

Eu já tinha comentado aqui que isso não tem a ver com ser bem acolhido ou não. Nesse ponto, eu e a Vanessa concordamos: fomos muito bem recebidas pelos portugueses.

Para mim, tem mais a ver com o quanto conhecemos o lugar, as pessoas, as normas… Aquilo tudo que é natural porque faz parte da nossa vida desde pequenos.

É tipo pegar o ônibus com ele andando.

O bom é que tudo isso me fez aprender. Nunca mais andei de patinete, fico atenta a todos os prazos e estou sempre com a bateria portátil carregada.

Já a sensação de pertencimento deixo para mais adiante.

Adaptação fácil, mas com ressalvas

Mudança e adaptação são duas menininhas que caminham de mãos dadas. Eu já tinha falado um pouco sobre isso nesse post aqui.

Teoricamente, brasileiro que está morando em Portugal não tem dificuldades para se adaptar: a língua é a mesma, a direção do carro é do mesmo lado, a comida é parecida, muitas leis são semelhantes.

Mas, na prática, a coisa é um pouco mais aventureira.

Português x brasileiro

Começa pela língua: em Portugal, há o português e o brasileiro. O que é justo, porque tem mesmo muitas diferenças.

Por exemplo, português usa muito o verbo “meter”, sem a conotação agressiva que há no Brasil.

“Mete a foto na página 2!” me soava quase como um xingamento no início. Mas fui acostumando e hoje já não estranho tanto.

Por outro lado, nunca vou me acostumar com o “mais pequeno” no lugar de “menor”. E por aí vai.

É um português mais formal, sem dúvida. E as diferenças no vocabulário chamaram muito a minha atenção.

Com tanto brasileiro morando em Portugal, muitas palavras portuguesas já são conhecidas no Brasil. Então, vou deixar aqui uma listinha só com as minhas preferidas:

  • Afiadeira: apontador de lápis
  • Agrafador: grampeador
  • Ananás: abacaxi
  • Autoclismo: descarga
  • Banda desenhada: história em quadrinhos
  • Bisar: repetir
  • Clementina: bergamota (amo essa!!!)
  • Ecrã: tela
  • Fecho: fechamento (da edição do jornal)
  • Fino (ou Imperial): chopp
  • Lambarice: coisas que engordam, porcaria, gordice
  • Parvo/parvoíce: bobo/bogagem
  • Pé coxinho: pular em um pé só*
  • Sandes: sanduíche
  • Seca (pronuncia-se séca): chatice
  • Talho: Açougue
  • Xi-coração: abraço*

*Essas duas aprendi com a Ana Margalho, jornalista que trabalha comigo e conhecedora de TO-DAS as expressões fofas de Portugal!

E, pelo amor de Deus, nunca diga que você quer fazer bicos em Portugal. Enquanto, no Brasil, fazer bicos é trabalhar como freelancer, por aqui, bico tem uma conotação sexual. A menos que essa seja mesmo sua intenção, aí tudo bem 😉

Gastronomia

Já a gastronomia divido em duas partes: a do dia a dia e a típica portuguesa.

A primeira foi fácil. Basicamente, tudo o que eu comia no Brasil tem aqui. Senti falta de poucas coisas, como doce de leite e coraçãozinho de galinha, por exemplo.

A Vanessa contou que isso também foi bem fácil para eles. “É uma alimentação muito rica e de fácil acesso financeiramente.” De fato, as coisas não são caras. Nem mesmo os peixes e frutos do mar.

Porém, a gastronomia típica ainda é um problema para mim. Primeiro, porque usa carnes que estão longe de serem minhas favoritas, como peixe, cordeiro, ovelha e cabra.

Segundo, porque há muita misturança. E eu gosto de enxergar e distinguir o que estou comendo.

Mesmo assim, alguns pratos tradicionais já ganharam meu coração, como o Bacalhau com natas e a Francesinha (opa, desculpa, babei aqui!).

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Francesinha da Cufra Grill, em Coimbra

Já aos doces me adaptei num instante! Há doces realmente maravilhosos, como o famoso pastel de nata – que, apesar de clichê, é meu favorito até agora.

Liberdade

Por último, o mais fácil foi me acostumar com a liberdade de andar na rua. Posso olhar o celular ou parar no sinal vermelho de madrugada sem medo. Atenta, mas sem medo.

Mas… a vida não é uma caipirinha de morango! Os contras pesam, e muito!

Uma adaptação impossível chamada saudade

O mais difícil é superar a saudade, estar longe das ruas que cresceu, não comer coisas habituais, como Pastelina, por exemplo, que são nossas referências.” Foi o que a Vanessa disse quando perguntei qual foi a adaptação mais difícil.

De fato. Desde que tomei a decisão de morar em Portugal, sabia que a única coisa que poderia me abalar seria a saudade das pessoas.

No início, na fase do deslumbre, ela veio com menos intensidade. Era mais a vontade de dividir aqueles momentos com quem ama do que, propriamente, sentir a falta.

Na segunda semana, lembro que estranhei o fato de ainda não ter chorado de saudade. Aquele choro dramático de “meu Deus, quando vou ver minha família de novo?”, sabe?

Provavelmente, porque até então parecia que eu estava de férias. A adrenalina da mudança mascarou outros sentimentos, entre eles, a saudade.

Mas o tempo passa e essa máscara vai caindo. Sai o deslumbre e entra a realidade.

Nada substitui o happy hour ou o almoço de domingo. Nem mesmo cinco dias em Madri.

Claro que tem muitas vantagens. E foi por isso que eu assumi dois universos paralelos: em um está a Melina que aproveita ao máximo a oportunidade de morar fora; em outro, a Melina que não suporta a distância da família.

Foi a forma que encontrei de manter o equilíbrio mental. Ativo e desativo cada universo conforme a ocasião exige. Não é tão simples assim, mas funciona.

E é exatamente isso que nos leva à parte final do texto.

A eterna dúvida de estar fazendo a coisa certa ou não

Primeiro, achei que o problema fosse meu combo indecisão-insegurança-insatisfação. Até a Vanessa dizer que sente o mesmo e conhece gente que também sente.

“Estamos nos privando e privando nossas filhas de conviver com a família, os tios, os avós, os primos, os amigos. Será que a gente fez o certo?”, questiona.

Nesses 366 dias em que estou morando em Portugal, não teve um em que não me perguntei o mesmo. Será que não vou me arrepender de abrir mão desse tempo com eles?

Se você achou que não tenho resposta para isso, achou certo. Não tenho e duvido que alguém tenha.

Mas essa reflexão ativou algumas lembranças de decisões semelhantes que já tomei no passado.

Durante muito tempo, fiz questão de passar a virada do ano com a minha família. Sempre com o pensamento apocalíptico de que poderia ser nosso último ano novo juntos (?!?!).

Perdi viagens bacanas e passei réveillons pouco empolgantes por causa disso. E (ainda bem!) estamos todos aqui, vivos e saudáveis.

Então, mudei a forma de pensar. Na impossibilidade de prever o futuro, busco fazer o que me deixa feliz no presente.

Sempre quis ter essa experiência de morar fora. Por que continuar adiando em nome de algo que não sei se vai acontecer?

Como lembrou a Vanessa, “cada escolha, uma renúncia. É impossível ter tudo”.

Até porque as tecnologias estão aí para nos aproximar, do whatsapp ao avião. Por isso, tento deixar de lado a culpa e aproveitar o que de melhor tenho neste momento. 

Inclusive, acredito que essa seja a única forma de amenizar esse sentimento: fazer valer a pena a distância. 

É o que estou tentando 🙂

5 Replies to “Um balanço do meu primeiro ano morando em Portugal”

  1. Adorei Meli, até deu vontade de me mudar tb…lembrando que a empresa q o Felipe trabalha é portuguesa… aproveita bastante, dirige bastante o teu carro e a tua vida…quando a gente faz escolhas, sempre vamos perder algo e o importante é não NOS perdermos. Ah, vi a foto com a tua irmã e tu ta muito linda, iluminada…esses “poix poix” tão te fazendo muito bem ❤️❤️❤️❤️

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