Meu nariz não é grande

Acabei de ver um vídeo que eu gostaria de não ter visto. Já que não posso desver, resolvi falar sobre ele. Não, não vou passar o link, tenho como princípio não dar publicidade para quem fala coisas que, na minha opinião, são muito danosas. Tudo o que vocês precisam saber é que o conteúdo condena o politicamente correto. O apresentador é um homem branco de classe média alta e, ao que tudo indica, hétero. Óbvio.

O politicamente correto incomoda aqueles que sempre estiveram no “topo da cadeia alimentar”, ou seja, pessoas com uma vida estabilizada, que não sofrem nenhum tipo de discriminação e são adeptas de “brincadeiras” que depreciam o outro. Há algum tempo, aqueles que não acham isso legal começaram a falar, a sugerir que essas piadinhas de mau gosto não fossem mais feitas. Elas rebaixam, humilham. “Antes todo mundo levava numa boa, agora vem a geração mimimi e reclama de tudo.” Será que levavam numa boa mesmo? Ou apenas não se sentiam à vontade para contestar?

No colégio, alguns colegas faziam piadas com meu nariz, diziam que era grande. Meu nariz não é pequeno, mas também não é grande. Ainda assim, eu ficava incomodada, mas nunca rebati, pois sabia que seria ainda pior. Talvez, se outros alunos se indignassem também, eu teria coragem de dizer que não gostava da brincadeira. Porém, sozinha, não me sentia à vontade para reclamar. Eu era uma adolescente, insegura como qualquer outra, sendo zoada pelos “populares” da minha turma. Tudo o que eu não queria era fazer mais barulho sobre aquilo.

Nem todo mundo sabe o esforço que boa parte das pessoas faz para se encaixar no mundo ao seu redor. Indivíduos ignoram seu bem estar, às vezes até sua dignidade, para não entrarem em atrito com amigos, familiares, colegas de trabalho, chefes… Muitas dessas pessoas cresceram com ataques constantes à sua autoestima. Tornaram-se adultos inseguros, com a impressão de que precisam pedir desculpas, o tempo todo, por existirem.

Se alguém deve pedir desculpas, esse alguém são meus colegas a mim, os racistas aos negros, os machistas às mulheres e assim por diante. Discordar do politicamente correto é se recusar a crescer. No vídeo que mencionei, o cara incentiva as pessoas a não terem medo de discordar. É exatamente o que estamos fazendo, meu senhor!!! Não temos mais medo de discordar! Porém, no nosso caso, discordamos do preconceito, do deboche, da falta de empatia. Discordamos que o mundo continue politicamente incorreto, porque isso faz mal à grande parte das pessoas. Não somos nós que estamos chatos, vocês é que não evoluíram.

A distorção da realidade é muito grave em um país tão deficiente em educação. Minimizar o politicamente correto a uma lista de moralismos é irresponsável e cruel. Isso perpetua a falta de respeito e a desumanidade e adia nosso sonho de morar em um lugar mais justo.

Acha que estou exagerando, seu branquelo de m$&*a? Calma, foi só uma piada, não sabe brincar?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.