Esqueçam direita e esquerda

“Não é uma eleição comum”. Quem disse isso foi a Guiga, minha amiga há quatro anos. Acho importante citar a fonte neste momento em que ninguém se preocupa com a origem da informação. Mais importante ainda: é uma fonte confiável. Sei quando a Guiga está falando bobagem e posso garantir que não foi o caso. Sendo assim, fico com a consciência tranquila para seguir adiante.

Meu primeiro voto foi em 1996, com 17 anos. Também era o primeiro pleito com urnas eletrônicas. Não lembro em quem votei para prefeito ou vereador, só lembro que estava com as unhas pintadas de laranja. Não me orgulho nem um pouco desse fato, mas penso que ele diz muito sobre como a política vinha sendo tratada por boa parte da população. Acreditando na ideia de que “não vai mudar nada mesmo”, escolhemos mal, não acompanhamos o mandato, não avaliamos o quanto o trabalho foi bom ou ruim para a população. Reclamamos, mas continuamos votando nas mesmas latinhas. E fica esse círculo vicioso que só faz bem pra quem tá lá em cima, bem lá em cima, pagando e recebendo propinas.

De dois anos para cá, o cenário começou a mudar. Não do lado de lá, que segue na corrupção vossa de cada dia. Mudou o lado de cá. De repente, as pessoas passaram a militar por seus candidatos – que estão mais para líderes de seitas do que pessoas comuns que deveriam trabalhar por nós. A ideia pode parecer excelente na teoria: o cidadão, finalmente, está se posicionando. Não vai mais aceitar qualquer um e quer alguém que o represente de verdade. Na prática, a situação está mais feia do que a cor das minhas unhas em 1996.

Na ânsia de defender o que pensa, a militância esqueceu de se informar. Não generaliza, Melina! Óbvio que não generalizo! Partam sempre do princípio que, em um texto opinativo, nada é generalizado, a menos que esteja escrito o contrário. Aliás, a generalização é justamente um dos pilares da intolerância e violência que ambos os lados estão promovendo dentro e fora das redes sociais.

Mas voltando duas casinhas: a militância não se informa. E não é porque não tem acesso, é porque tem consciência de que encontrará coisas que não embasam suas ideias (isso lembra o primeiro texto que divulguei, Falsas verdades, dá uma olhadinha lá).

Neste ano, dos treze candidatos que estavam concorrendo à presidência da República, conseguimos a proeza de levar ao segundo turno os dois com as maiores rejeições entre a população. Dois extremos, um prato cheio para estragar o almoço familiar ou fazer uma limpa no facebook.

Dez entre dez postagens contêm pelo menos uma menção agressiva à polarização política. Mas era só uma foto de cachorrinho, sem legenda nenhuma! Vai lá nos comentários e vê se não deram um jeito de dizer que o cachorro late 13 ou 17 vezes por dia. Dividiram em esquerda e direita até os vídeos de bichinhos que nos tiravam da bad. E isso generalizou a bad (agora sim, estou avisando que generalizei).

Pois aí vai a opinião de quem nunca imaginou que falaria sobre política na terapia: a única polarização que vejo nesta eleição é pessoas com empatia x pessoas sem empatia. Se não quiser continuar lendo, não precisa. Mas eu vou continuar escrevendo, pelo menos enquanto tiver esse direito.

Aqui no meu mundinho, erroneamente, estamos dizendo que é direita contra esquerda. Mas algumas coisas não faziam sentido pra mim como, por exemplo, pessoas que eu amo (e que me amam também) acreditando e divulgando informações que me ofendem diretamente. Não me conformava, tinha que ter outra explicação.

Sou filha de pequeno empresário e sei o quanto é difícil empreender no Brasil. Não segui o mesmo caminho e, há anos, trabalho em empresas privadas e com carteira assinada. Talvez por conhecer bem os dois lados, nunca optei por uma posição política. Ambas têm suas vantagens e desvantagens pra mim. Mas, por me sentir uma mulher privilegiada, resolvi estourar minha bolha e conhecer outras realidades.

Aí passei a entender alguns porquês e percebi que nunca vai ficar bom de verdade enquanto só pensar no que é bom pra mim. Porque somos uma sociedade. Quando você assopra aquela água com sabão para virar bolhinhas, elas voam e, em algum momento, se chocam e estouram. Ou seja, é impossível fazer de conta que as outras não existem ou, pior ainda, querer que elas deixem de existir só para que você continue voando sozinho.

Talvez toda essa teoria seja uma forma de explicar porque pessoas que adoro têm discursos que me fazem chorar. A empatia pode ter níveis diferentes e isso define até onde aquele ser humano se importa. Vou acreditar que é isso.

(In)Felizmente, meu grau de empatia beira o papel de trouxa. Perdi a conta de quantas vezes fiz algo contra minha vontade para que outro ficasse bem, simplesmente porque o meu sofrimento seria menor que o dele. Incomoda muito saber que meu bem-estar pode custar caro para alguém. Não importa quem, porque não cabe a mim relativizar. Ser contra a violência é não concordar com qualquer tipo de violência contra quem quer que seja. Se não for assim, a justiça é relativa. E isso nunca é bom.

Posso me decepcionar, é um risco que eu corro. Também posso estar maximizando o problema, apesar do que temos visto no dia a dia. Ainda assim, prefiro usar esmalte laranja para o resto da vida do que ser conivente com quem se acha no direito de escolher qual cor o outro vai poder usar.

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