Enfadonha, injusta e imoral

Há dois meses, quando perguntei sobre qual tema eu poderia escrever, meu ex-colega da pós, Pablo, sugeriu que eu escrevesse sobre filhos. Sei porque ele disse isso. Esse assunto surgiu em vários momentos dos dois anos em que convivemos e sempre com o mesmo ponto: eu dizia que não queria ser mãe, ele tentava me convencer do quão legal isso poderia ser.

Pablo nunca esteve sozinho nessa missão. Fiquei doze anos casada e a pressão externa era imensa! Ouvi de muitas pessoas que uma hora eu teria vontade de gerar um serzinho. Mas essa vontade nunca chegou. Pelo contrário. Quanto mais meu relógio biológico girava, maior era a certeza de que estava tomando a decisão certa.

Nem sempre foi assim. Lá pelos vinte e poucos anos, na minha cabeça, era óbvio o rumo que minha vida tomaria: jornalista, casada, com casa própria, filhos e cachorros. Um pensamento com resquícios da geração dos meus pais, quando era raríssimo uma mulher enveredar por outro caminho. Depois de dois anos de casamento, chegamos a planejar uma possível gravidez em mais dois anos. O tempo passou e, na época, nossa situação não era a que gostaríamos para ter uma criança. Adiamos.

Graças a Deus! Porque dali em diante parece que meu lado maternal acordou e não se sentiu tão maternal assim. A essa altura, primas e amigas já começavam a trazer suas proles ao mundo e pude, então, avaliar a maternidade de forma mais racional. Meus planos para o futuro estavam ficando cada vez mais claros e, em nenhum deles, eu gostaria de encaixar um filho.

Eu contei tudo isso para poder dizer o porquê da minha decisão. Nunca estive disposta, física ou psicologicamente, para suportar a demanda que um filho traz para a mãe. Só para mãe? Sim, infelizmente, só para a mãe. Em nenhum momento achei justa a possibilidade de sacrificar mais a minha vida pessoal do que a do pai da criança. Não passava pela minha cabeça aceitar que, em uma possível separação, o ônus da criação diária seria todo meu. E algum de vocês têm coragem de dizer que estou errada? Que essas coisas não acontecem e são apenas desculpas para não procriar?

Não ousem! Nossa cultura patriarcal já melhorou muito, mas está longe de ser generosa com as mulheres. E confesso: tenho certo nojinho quando ouço um homem falando que reclamamos demais. E nojão quando deturpam o objetivo do movimento feminista de uma forma que seja conveniente a eles (lembram do texto Falsas Verdades? Tipo isso). Não nos meçam com suas réguas.

Sim, tô bem revolts essa semana. A notícia de que uma moradora de rua foi esterilizada compulsoriamente, em São Paulo, me embrulhou o estômago. Casualmente, tem muito a ver com o que escrevi na semana passada, mas meu ponto não é esse. Em lugar algum eu li ou ouvi alguém perguntar pelo pai, ou pais, dos tantos filhos daquela mulher. Aliás, li. Em posts de pessoas tão indignadas quanto eu. Em nenhuma linha da decisão judicial, o pai, tão irresponsável quanto, foi citado ou condenado à castração.

Se isso não corrobora meus argumentos para seguir tomando pílula, eu paro de comer chocolate. É enfadonha, é injusta, é imoral a diferença de responsabilidades atribuídas a pais e mães. Eu admiro muito mulheres que têm filhos. Para elas, pode parecer apenas um sonho realizado, para mim, no entanto, é o maior gesto de coragem que uma pessoa pode ter.

Hoje, o rumo que minha vida tomou não tem mais nada a ver com aquele de quase 20 anos atrás. As pessoas ao meu redor já se convenceram da minha escolha e não preciso mais ficar dando respostas constrangedoras a perguntas que sequer deveriam ser feitas. Não existe mais a chance de mudar de ideia. Quem sabe na próxima encarnação, se não tivermos mais uma cultura tão machista. Caso contrário, quero vir homem. De preferência, branco e hétero, que é para não precisar ficar de mimimi*.

*Para quem não entendeu, foi ironia, tá?

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