Depois dos 30 (e dos 40, 50…) ainda tem muita vida pela frente

De zero a 10, qual seu nível de satisfação com a vida que está levando? Depois dos 30 anos, qualquer coisa que não seja 10 merece uma reflexão. E vou explicar por que.

Primeiro, seria cruel da nossa parte levar em conta nessa pontuação aquilo que não está nas nossas mãos. Então, desconsidere nessa análise a perda de alguém muito querido ou uma demissão injusta, por exemplo.

É claro que essas coisas interferem em nosso estado de espírito, às vezes por um bom tempo. Mas, se deixarmos que essa interferência seja permanente, podemos dar adeus a uma vida feliz, certo?

Com isso em mente, vamos voltar à escala de satisfação.

Quando falei sobre 10, não quis dizer que esse tem que ser o nosso nível de satisfação necessariamente. Sejamos realistas: atingir uma satisfação absoluta é bem difícil.

Mas quero levantar dois questionamentos: Com o que você não está 100% satisfeito? E o que é possível fazer para melhorar essa porcentagem?

É aí que entra nossa idade: depois dos 30 anos, é bem provável que tenhamos mais claro o que nos faz bem e o que não faz. Depois dos 40, 50 e até mais, então, nem se fala!

Logo, se temos a experiência a nosso favor, por que achamos que estamos velhos demais para mudar o que nos desagrada?

Ao longo do texto, vou contar a história de mais três mulheres que partiram para uma vida diferente depois dos 30 anos. Aliás, depois dos 40.

E o bacana é que cada uma tem um contexto diferente: uma é solteira, a outra é solteira com filho e a outra, casada com filho. Todas são inspiradoras! Segue aqui na conversa que você vai ver.

Para começar, quanto tempo você tem depois dos 30?

Se você gosta de futebol, vai entender bem minha analogia.

Seu time está jogando a final do campeonato. O jogo está 0 a 0 e, aos 35 minutos do primeiro tempo, o adversário faz um gol. Você vai embora do estádio e dá a taça por perdida?

Pois segundo o IBGE, uma pessoa que está na casa dos 30 anos tem uma expectativa de vida de 78 anos. Isso quer dizer que, nessa idade, você não chegou nem ao final do primeiro tempo ainda.

Então por que se condenar a uma vida meia boca tendo tanto tempo pela frente?

Consigo entender um pouco essa nossa aflição em relação à idade. A geração de nossos pais teve uma realidade completamente diferente da nossa.

Costumo dizer que aos 40 anos meus pais sustentavam três filhos. Eu, aos 40, compartilho memes.

O que também não significa vagabundagem. Sou responsável pelos meus boletos desde os 26 anos. Falo mais em relação a comportamento, prioridades e vontades mesmo.

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Na Gelatomania, Nazaré, com cara de quem manda memes aos 40 anos

Parando para pensar, é uma coisa meio óbvia. O aumento da expectativa de vida não prolonga só a “velhice”. Todas as fases dão uma esticadinha. 

Então, é bem natural que você, aos 30 anos, seja diferente de seus pais quando tinham a mesma idade.

Vou dar um exemplo e tenho certeza de que vai lhe parecer familiar.

Lembro de quando minha avó faleceu, em 1993, com 58 anos. Ela era uma senhorinha, uma avó mesmo. 

Hoje, minha mãe tem 64. Ainda assim, aparenta ser mais jovem do que minha avó era quando se foi.

Lembrou alguém? É possível que você tenha um exemplo muito semelhante na sua família. Ou até mais de um.

Então, quando se fala em idade, vamos parar de comparar gerações. São épocas e ideias completamente diferentes. O que funcionava antes, não funciona agora.

E, principalmente, o que não funcionava décadas atrás, funciona – e muito bem – nos dias de hoje.

Foca na sua realidade e nas suas experiências. Quem vive a sua vida é você e mais ninguém! 

Dê ouvidos à sua insatisfação

Em janeiro deste ano troquei uma ideia com outros brasileiros que estão morando em Portugal. Minha intenção era conhecer um pouco a motivação de cada um.

Todos estão na casa dos 40 anos e vieram para cá há pouco tempo (no máximo, três anos). Alguns vieram para trabalhar, outros, estudar. Mas todos, sem exceção, falaram que tudo começou com uma insatisfação.

E aí, querido leitor, falta linha no bloquinho para apontar tanto motivo para estar insatisfeito:

  • trabalho que paga mal
  • trabalho que até paga bem, mas acaba com a saúde
  • trabalho que paga mal E acaba com a saúde
  • relacionamento que não anda nem desanda
  • falta de perspectiva de dar um futuro digno a si e à família
  • excesso de desconfiança e medo, de tudo e de todos
  • sentimento de que corre, corre, e nunca sai do lugar

Entre outras coisas.

Foi o caso da Simone Mendonça.

Em abril de 2018, fiz o Realize, um curso voltado para jornalistas que estavam querendo mais da vida. Foi através dele que a Simone e eu nos conhecemos.

Ela tem 51 anos e é mãe do Davi, de 17. Ambos são do Rio de Janeiro. Eles chegaram a Portugal em dezembro de 2019, em meio ao furacão Elsa.

Para ela, o que mais pesou na decisão de sair de lá foi a falta de segurança e de liberdade de pensamento. 

“O Brasil é maravilhoso, mas está impraticável criar um filho lá com autonomia e senso crítico, duas coisas que prezo muito”, contou.

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Olha esses sorrisos e diz se a mudança não fez bem à Simone e ao Davi (Foto: Arquivo pessoal)

Por isso, quando bate o desgosto, chega a hora de repensar alguns aspectos da vida.

Isso quer dizer que vamos mudar sempre que não estamos gostando de algo? Também não. Quer dizer apenas que devemos colocar aquilo em uma balança para vermos se ainda vale a pena seguir no mesmo caminho.

Quer ver?

Dentro da indústria gráfica, já trabalhei em diversas áreas. Desde aquela empresa tradicional, que faz folder, folha timbrada, etc, até jornal diário.

Também desempenhei diferentes funções. De funcionária à sócia, passando por profissional autônoma.

E onde eu encontrei mais paz de espírito foi na que eu tive a remuneração menor. Porque, para mim, o importante é fazer o que gosto, de forma honesta e com um mínimo de valorização.

Eu não estava satisfeita com o salário. Mas tinha outros benefícios, como paz, tempo livre e bom ambiente de trabalho. Aquilo fazia meu saldo ser positivo. No fim das contas, eu estava feliz. 

Então, se algo não está bom, não precisa sair mudando. Faça os cálculos, avalie. Se a conta for positiva, você já está melhor do que muita gente.

Mas, se a balança pesar para o lado ruim, reveja os números. E pense o que é possível fazer para equilibrá-la de novo.

Não deixe a idade ditar seus sonhos

Você também tem a sensação de que o mundo impõe uma idade para cada sonho?

  • “Com 20 anos, sonho em fazer intercâmbio.”
  • “Com 30 anos, sonho em ser mãe/pai.”
  • “Com 60 anos, sonho em me aposentar e morar na praia.”

Aí, depois dos 30, se não fez intercâmbio, acabou. Agora não pode mais. Agora tem que sonhar em ser mãe. 

Isso é tão descabido! Sonhos não têm idade. E digo mais: a realização deles também não!

Olha isso e vai concordar comigo.

Desde adolescente, a gaúcha Fernanda Asp tinha vontade de morar fora do Brasil. Ainda naquela época, inclusive, estudou inglês e italiano, de tanta curiosidade que tinha pela cultura alheia.

Mas a vida obrigou a Nanda a adiar esse sonho. Questões familiares e a necessidade de investir dinheiro em outras áreas deixaram a vontade em stand by. 

Quando o Hugo, marido da Fernanda, pensou em fazer mestrado fora do Brasil, ela viu que a hora tinha chegado. Isso foi em 2018.

Aos 41 anos e com um filho pequeno, finalmente, ela começou a arrumar aquela mala com que tanto sonhou. 

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Hugo, Fernanda e Henrique chegando a Portugal. “6 malas e frio na barriga!” (Foto: Arquivo pessoal)

Eu quis saber se ela se arrepende de não ter feito isso antes. “Acho que vim na época certa”, respondeu.

Morar no exterior também era um sonho da Simone desde adolescente. E, assim como a Nanda, precisou deixar a ideia de lado em função das circunstâncias da vida. [Viu? Não é só com você que isso acontece!]

Uma dessas circunstâncias foi a maternidade. Não porque isso impede a mudança, mas por um motivo que achei incrível. 

“Quando tive meu filho, preferi adiar esse passo para que ele tivesse uma relação próxima, estreita e forte com o pai, já que somos separados”, disse a Simone. Eu achei tão lindo isso!

Nos últimos anos, veio a vontade de oferecer ao Davi “um ambiente no qual pudesse ganhar autonomia em tudo, desde ir e voltar da escola sozinho e andar nas ruas sem medo, até oportunidades profissionais e de formação”.

E, com isso, aflorou novamente a ideia de sair do país. “Quando ele e o pai sinalizaram que esta decisão não afetaria a relação entre eles, vi que o momento tinha chegado.”

Percebe que não é uma questão de idade? Mas sim de sentir um chamado da vida para a mudança – seja ela qual for?

Também me encaixo nesse grupo de pessoas que queria ter a experiência de morar em outro país. Mas a oportunidade só apareceu depois dos 30 e aproveitei.

Aliás, no próximo texto, você vai conhecer a história do seu Ivano, que esperou 24 anos para realizar um sonho. E foi tão lindo!

Por isso, se você também tem um sonho, seja ele morar fora do Brasil, mudar de profissão ou qualquer outro, resgate-o quando puder. Sonhos não têm prazo de validade. E a sensação de realizar um deles é maravilhosa em qualquer idade!

Maturidade, essa bênção

Não vou cometer o erro de relacionar diretamente idade e maturidade. Há crianças maduras e adultos imaturos por todos os lados. E esse texto do Gustl Rosenkranz no Conti Outra fala muito bem sobre isso, na minha opinião.

Mas existe uma grande chance de você ser mais maduro hoje do que quando tinha 20 anos. Porque, já dizia Shakespeare, amadurecimento tem muito a ver com experiências e com nossa capacidade de aprender com elas.

Aprendi que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiências que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. William Shakespeare

Aí é como na escola: quanto mais aprende, mais preparado você está.

Por isso que, ao invés de pensar que depois dos 30 está velho demais, pense que você está maduro o suficiente para encarar a mudança. Uma mudança que poderia ser um caos se fosse feita em outra época da vida.

Olha aqui o que muda quando adquirimos mais maturidade:

  • Estamos mais seguros do que queremos e, mais ainda, do que não queremos.
  • Distinguimos melhor uma crítica construtiva de um julgamento, logo, não nos abalamos com qualquer opinião alheia.
  • Temos mais jogo de cintura para lidar com imprevistos e constrangimentos, afinal, já passamos por muitas coisas e aprendemos com cada uma delas.
  • Somos vistos com mais seriedade pelas pessoas em geral.
  • Sabemos que nada é o fim do mundo e amanhã o dia vai nascer de novo, com novas oportunidades.

Agora pense em como seria mais difícil recomeçar sem toda essa bagagem.

A Vivian Franzmann está naquele momento ansioso de espera do visto. Com quase 42 velas no bolo, decidiu que estava na hora de uma chacoalhada.

Em fevereiro de 2019, ela esteve de férias na Espanha. Foi quando bateu a vontade de viver mais tempo em um lugar diferente, com outra cultura e outros hábitos.

Veja, que coisa! Diferente da Fernanda e da Simone, a Vivian nunca tinha pensado na ideia de sair do Brasil. A vontade chegou só agora. O que mostra que isso pode surgir a qualquer momento.

Arquiteta e Engenheira em Segurança do Trabalho, ela viabilizou essa mudança através do estudo. E, já em abril, inicia uma pós-graduação no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra.

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Vivian (à esq.), bem feliz depois de entregar a documentação para o visto em São Paulo (Foto: Arquivo pessoal)

Aliás, são muitas as pessoas que vêm com esse objetivo. Gente com 40, 50 anos, que quer melhorar o currículo acadêmico com Mestrado e Doutorado (que aqui chamam de Doutoramento).

Inclusive a Ana e a Carla, que vocês conheceram no texto Natal longe da família e a importância de ressignificar datas.

E, até nisso, a maturidade é uma aliada: a escolha da área de estudo pode ter muito a ver com sua experiência de vida.

Para a Simone, que está aqui fazendo Mestrado em Comunicação, foi justamente a maturidade que deu a coragem – que tanta gente acha que não tem, por isso vou falar mais sobre ela lá adiante.

“Quando fiz 45 anos, listei as coisas que eu desejava muito mas ainda não tinha feito. É uma hora que a gente percebe que há mais tempo vivido do que tempo a se viver.” Louca essa reflexão, não?

Faz sentido tudo isso para você?

E o mercado de trabalho depois dos 30?

Essa é uma das maiores preocupações de quem busca uma mudança na vida. Principalmente quando essa mudança inclui sair do país de origem.

E com razão. Por menos luxos que você tenha, vai precisar de alguma grana para se sustentar.

Mas não deixe que isso o desanime. Não é impossível conseguir trabalho depois dos 30 anos, ainda mais quando não falta disposição.

A Simone estudou durante muito tempo a realidade de Portugal antes de vir para cá: 

“Vim pronta para trabalhar no que aparecesse. Não me limito a dizer que sou uma determinada profissão. Em vez disso, me vejo como uma pessoa capaz de mudar uma realidade, seja cuidando de idosos, servindo mesas, trabalhando em fábricas, fazendo reportagens ou qualquer outra função. Pensando assim, consigo enxergar oportunidades”, explica.

É uma mentalidade muito semelhante à minha. Normalmente, uma mudança é um recomeço.

E o que se faz quando está começando? Aproveita as oportunidades que surgem para aprender o máximo possível com elas.

Sair do país pode exigir que você trabalhe fora da sua área, por exemplo. Aliás, isso é bastante comum.

E é fundamental que você esteja aberto a essa possibilidade. Aberto mesmo, sem preconceito, vendo aquilo como um meio de conquistar a vida que você busca.

Até porque desenvolver uma determinada atividade traz diferentes experiências dependendo do lugar em que você está.

Quando cheguei a Portugal, minha intenção era ficar na Nazaré (como contei aqui). Para quem não sabe, Nazaré é uma praia com cerca de onze mil habitantes.

Quais eram as chances de eu trabalhar como diagramadora por lá? Menores do que ganhar no Euromilhões. 

Então já vim esperando trabalhar em lojas ou restaurantes – que sempre têm vaga na alta temporada em destinos mais turísticos.

Durante um mês, trabalhei em uma loja na Av. da República, aquela na beira da praia. E todos os dias aprendi algo novo.

Ou através das minhas colegas, que me ensinaram muito sobre Portugal. Ou com os turistas de diversos países que passeavam por lá.

Foi uma oportunidade para conhecer melhor sobre culturas e treinar meu inglês enferrujadíssimo. 

Seria uma tarefa entediante pra mim em qualquer shopping no Brasil. Mas ganhou outra dimensão por ser feita em um lugar onde tinha muito a descobrir.

“Mas dá para trabalhar na minha área, não dá?”

Dá. Mas isso varia muito e merece atenção. Algumas áreas são mais fáceis, não pelo número de vagas, mas pela menor burocracia em relação à documentação.

Eu não precisei fazer nenhuma revalidação. [Até porque, meu diploma não vale mais nem aí! Obrigada, STF!]

Também tive a sorte de começar minha busca por trabalho em Coimbra justamente no momento em que o Diário de Coimbra procurava um paginador. 

É uma atividade que precisa de determinado conhecimento, mas não requer Conselho, Federação ou responsabilidade técnica.

Então, se você exerce uma atividade com essas características, basta que o universo faça você e vaga se encontrarem.

Isso muda um pouco para a área da saúde ou do Direito, por exemplo. Nesses casos sim, é indispensável a validação de diplomas e outros títulos.

A Fernanda, formada em Odontologia, sempre atuou como dentista no Brasil. Mesmo com quase vinte anos de experiência, está passando por um longo processo para poder exercer a profissão aqui.

“Eu tinha uma expectativa de que o processo de revalidação fosse mais rápido. Entrei com a solicitação em junho do ano passado e só em dezembro veio a primeira resposta. Farei uma prova em maio e, depois de um tempo, apresento uma monografia para uma banca. Ou seja, é um processo de um ano.”

Entende como é muito relativo e que pode dar supercerto ou não?

E como essa parte rende muito assunto, vou deixar alguns links que podem ajudar nessa que é uma das questões que mais pesam, em especial quando o assunto é morar fora do Brasil.

Dá uma olhada aqui:

Depois dos 30 a gente também se adapta

Em novembro de 2019, saí do estúdio em que estava para dividir um apartamento com desconhecidos.

Comentei isso com o cara de quem eu alugava o estúdio e ele disse: “Se tu tivesse 19 anos, tudo bem. Mas agora, acho que tu não vai gostar.”

Ignorei o fato de ouvir que estou velha demais para isso porque vi que ele se mordeu por eu não ter alugado outro imóvel dele.

E porque ele tinha certa razão. Somos mais tolerantes quando mais novos. Às vezes, toleramos até demais. De fato, eu tinha aquele receio.

Mas a maturidade anda do ladinho de uma coisa que salvou a minha vida ainda lá em 2017, quando me separei: Resiliência.

Muito diferente do conformismo, a resiliência é a capacidade de se adaptar às mudanças, em especial quando vêm acompanhadas de situações adversas.

De uma forma bem coloquial, é solucionar um problema sem surtar. E, para mim, isso só é possível quando vemos o lado bom da encrenca toda.

Eu preferia ter uma casa só minha? Óbvio! Estou cheia de coisinhas de decoração esperando uma parede que eu possa furar.

Para isso, no entanto, eu gastaria quase o dobro com aluguel. E eu prefiro usar essa grana para viajar, comer, visitar minha família no Brasil…

Diante disso, o peso de dividir a casa com estranhos depois dos 30 ou deixar meus quadrinhos guardados em uma caixa diminui drasticamente.

A Simone contou que o maior desafio para ela está sendo o frio. Imagina vir daquele paraíso tropical que é o Rio de Janeiro e aterrissar em pleno furacão aqui?

Mas até isso, para ela, é um aprendizado. “Em breve vou superar, pois penso nas vantagens de estar aqui, tanto pra mim quanto para o Davi.”

Bom, do Davi nem precisamos falar: com apenas dois meses, já estava adaptado em relação a convívio social, escola, clima, temperaturas, cultura. Tudo!

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“Essa experiência está sendo uma grande ajuda para o meu amadurecimento”, contou o Davi (Foto: Arquivo pessoal)

Aliás, o depoimento dele vai bem para quem tem dúvidas se essas mudanças maiores podem fazer bem para os filhos:

Essa experiência está sendo uma grande ajuda para o meu amadurecimento como pessoa em si em questões coletivas e sociais, pois estou tendo com ela um avanço tamanho para a minha vivência cotidiana. Davi, de apenas 17 anos, provando que Shakespeare estava certo em não relacionar idade com maturidade

Já a Fernanda disse que a adaptação foi muito fácil. Mais tranquila até do que quando ela se mudou para o Rio de Janeiro, em 2016.

“O estilo de vida dos gaúchos é mais parecido com o dos portugueses do que com o do carioca. Então realmente foi muito fácil. Até porque aqui come-se muito bem, bebe-se muito bem. Como não se adaptar?”, brinca.

E a Vivian, ainda nem chegou, mas está otimista em relação a isso. “Vou de coração aberto, disposta a ter experiências diferentes e conhecer uma nova cultura. Acho que é o primeiro passo para uma boa adaptação.”

Coração aberto também é respeito!

Vou aproveitar o coração aberto da Vivian para fazer um gancho importante.

Vejo muitos estrangeiros aqui – em especial, brasileiros –, falando mal de portugueses – do jeito, da forma de agir, de como constroem as leis.

Parece que esquecem que estão aqui por escolha própria. E que, com todos os defeitos que supostamente têm, os portugueses têm uma qualidade de vida muito melhor que a dos brasileiros.

Eu vim bem humilde, respeitando as imposições e a forma de vida, pois quem veio de fora fui eu.

E só o que encontrei foi receptividade. Inclusive nas questões mais burocráticas, como fazer o número de utente e trocar a carteira de motorista.

Pode ter sido sorte, mas credito muito mais ao meu rabinho entre as pernas. Logo, a boa adaptação também depende bastante de como você se coloca nesse novo ambiente.

Não é se curvar ou se diminuir, mas se portar sem arrogância e respeitar o lugar em que você está e as pessoas que moram nele.

Ninguém está fazendo favor para ninguém. Com isso em mente, todo mundo se dá bem.

Dê o primeiro passo mesmo que ele não seja seu Plano A

Quando contei que a Fernanda estudou inglês e italiano, você deve ter se perguntado por que ela acabou vindo justamente para Portugal, onde não precisaria de nenhum desses idiomas.

[Se não se perguntou, deveria. A gente precisa questionar as incoerências da vida.]

De fato, Portugal não era sua primeira escolha. Mas acabou por ser a melhor opção no momento.

Um dos motivos para isso foi o filho do casal, Henrique, que completa quatro anos em abril.

“O Henrique estava começando a falar e a língua facilitaria muito para a adaptação dele”, afirmou. Além disso, o clima ameno e o valor mais acessível do curso acabaram por determinar o destino.

Não era o plano A, mas ainda assim era um bom plano. Não acha que vale a pena?

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Fernanda e Henrique em Lisboa: plano A é ser feliz, gente! (Foto: Arquivo pessoal)

Na  nossa conversa, a Simone até falou sobre a importância de dar o primeiro passo e as consequências disso.

“Só há dois caminhos, que são lineares: voltar para seu porto seguro, caso o plano não dê certo; ou seguir em frente, aprendendo, resolvendo, errando, trabalhando, conhecendo pessoas.” 

Nos dois casos, haverá a satisfação e o orgulho de saber que você fez o que podia para ser feliz!

Não tem coragem para ir? E para ficar, você tem?

Essa é minha resposta automática para quando me perguntam sobre ter coragem para mudar. Falei sobre isso no primeiro texto do blog, Morar fora do Brasil: quando eu vi que tinha chegado a hora.

Coragem tem muito a ver com desapego. E, depois dos 30, é normal já termos construído algo mais na vida. Ou termos mais preocupação com as pessoas que amamos. 

Fica, realmente, mais difícil viver uma aventura.

Mas aí, novamente, a dica é usar a maturidade a nosso favor.

Precisa largar absolutamente tudo e começar do zero? Não. É possível correr um risco calculado. 

O Hugo, marido da Fernanda, tem vínculo de trabalho no Brasil. Assim, ele segue recebendo um salário.

Para ela, foi isso que deu a coragem para virem, já que com filho pequeno as responsabilidades mudam.

Você pode estar pensando que assim é fácil. Mas nem tanto. A gente costuma colocar todo o foco na questão financeira, como se essa fosse a única barreira entre fazer ou não uma mudança.

Mas também há a solidão, a distância da família, o clima – que para muitas pessoas pesa pra caramba!

Sem falar que, quando se vem com vínculo, a volta é obrigatória. No caso da Fernanda e do Hugo, em dois anos, eles precisam voltar para o Brasil.

Ainda que tudo aqui esteja ótimo e eles estejam superfelizes, ficar não será uma opção.

Então tudo tem dois lados e sempre será necessária uma avaliação.

Diferente deles, a Simone veio sem nenhum vínculo brasileiro. Até o final do curso, se aparecer uma oportunidade bacana, ela e o Davi poderão ficar.

E você sabe o que fez a Si se encher de coragem? A chegada dos 45 anos.

Viu como o que é desanimador para uns, pode ser muito animador para outros?

“A coragem vem da certeza do que se quer e a constatação de que a vida passa rápido, muito rápido”, disse.

Para ela, é fundamental lembrar que toda conquista traz consigo renúncias. 

“Abri mão do clima ameno delicioso do Brasil para vivenciar tempestades, furacões, frio, neve. Abri mão do convívio com familiares e amigos que amo para fazer novos vínculos. Abri mão de bens materiais para adquirir experiência, vivência. Tudo isso tem que ser avaliado.

Então, se você já tem tudo o que precisa, menos a coragem, avalie o que você ganha e perde mudando. E o que você ganha e perde ficando no mesmo lugar.

Às vezes, a gente nem enxerga que há meios-termos:

  • A possibilidade de uma licença no trabalho, remunerada ou não.
  • Um intercâmbio de um mês, nas suas férias, o que pode dar uma boa ideia de como você se sente longe de casa.
  • A troca de cidade, sem ter que deixar o país.
  • A troca de função dentro da empresa em que trabalha.

Uma mudança, ainda que pequena, continua sendo uma mudança. E, para o seu inconsciente, ela vale ouro!

Para finalizar e convidar você a pensar sobre tudo o que conversamos até aqui, vou deixar essa frase inspiradora da Simone:

Tenho a certeza de que [a mudança] foi no momento certo. Vim aos 50 anos, quando muitos acham que a vida não pode render mais nada. E posso garantir que estou na minha melhor fase. Mesmo que porventura eu não consiga permanecer aqui, a sensação de tentar é maravilhosa.

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Olha eu, em Lisboa, toda escabelada e sem maquiagem, mas mostrando que nem o céu é o limite 😉

Bônus da Mê 🙂

Ainda estou pesquisando a realidade de outros países. Mas aqui em Portugal há um visto específico para aposentados, o D7.

Confira o site do Consulado Geral de Portugal, em São Paulo, para saber mais.

Aliás, nunca subestime o visto! Maturidade também inclui agir de forma correta.

Entrar como turista para tentar ficar pode ser o início de uma grande dor de cabeça. E isso vale para qualquer país, não apenas Portugal.

Se chegou até aqui é porque o assunto despertou algo em você.

Conte nos comentários sobre sua experiência.

Fez uma grande mudança na vida? Quer fazer?

Teve uma ideia completamente diferente da que contamos aqui?

Ou tem alguma sugestão ou conselho para quem quer mudar e não está conseguindo?

Quero saber tudo!

2 Replies to “Depois dos 30 (e dos 40, 50…) ainda tem muita vida pela frente”

    1. A ideia do blog é falar sobre a vida fora do Brasil – seja para quem já está em outro país ou para quem pretende sair. Foi como funcionou para mim e é por isso que falo sobre esse assunto. Mas certamente há outras formas de mudar sem precisar sair do Brasil. Aí é cada um com a sua história. 😉

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